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Caminhando contra o vento

Quando decidimos ouvir o que um médico tem para dizer é bom que confiemos nele. Foi por isso que ao fim de duas consultas com o pediatra que me conhecia desde os dois anos, passámos a consultar uma nova médica a cujos sábios conselhos nos entregámos. Um médico para concluir a sua formação (que nunca está acabada) estuda no mínimo dez anos, entre especialidades, internatos e coisas assim. Tenho, por isso, um certo pudor em discordar de um médico. O que não quer dizer que lide bem com o poder que os médicos às vezes exercem sobre os nossos corpos, dispondo deles como se apenas disso se tratassem. Pensei muito sobre a informação que temos disponível para fazer uma escolha quando colocámos a hipótese de crio-preservar a células estaminais do cordão umbilical da Alice. (Agora, como temos outro cordão umbilical entre nós, é possível que volte ao assunto).

Desta vez, no meio da discórdia estão os primeiros sapatos da Alice.

Porque sabíamos que há pelo menos duas correntes sobre o primeiro calçado de uma criança, decidimos esperar pela opinião da pediatra. Recomendou-nos que comprássemos uns sapatos formativos, com uma sola de couro, bem pesada, onde de incrustam pequenas borrachas anti-derrapantes, com um bom apoio de calcanhar. Disse-nos, depois de ver as tentativas da Alice, que quase de certeza que andaria em poucos dias depois de os calçar. A verdade é que não gostei dos sapatos, nem do preço que custaram, e ainda menos do modo como a Alice os calçou, olhando incrédula para eles, tentando tropegamente equilibrar-se. Desde então, não só desistiu das tentativas de dar pequenos passos que aconteciam um pouco à sua revelia quando se distraía, como passou a chorar frequentemente (embora não sempre) quando a púnhamos em posição de caminhar.

Uma hora de pesquisas on-line foi suficiente para perceber que não são assim tão poucos os defensores dos bare feet (exemplos aqui e aqui). Mesmo duvidando bastante de muita da informação dispersa na rede (e da minha capacidade de separar o trigo do joio no que respeita a informações médicas), as minhas dúvidas confirmaram-se nos fóruns. Nos fóruns, pelo menos no português, reina muita vezes o senso comum no pior sentido. Já li vários depoimentos de mães que aconselham a que se contorne regras básicas de segurança, garantindo que assim o fizeram e é a melhor opção. É a parte má dos fóruns, além da semântica cutchi-cutchi. A parte boa é que ali podemos dar-nos conta de como as opiniões dos médicos especialistas (que estudaram mais de dez anos e podem ter outros tantos de experîência) variam. Mesmo que não siga à risca as suas indicações, quem frequenta os fóruns escreve amiúde «o pediatra do meu filho recomendou-me que fizesse isto ou aquilo». Ali, pude perceber que são muitos os pediatras que aconselham que as crianças andem descalças ou quase (com meias anti-derrapantes, por exemplo), com o pé livre para os primeiros passos. A curva do pé forma-se mais facilmente assim. Outros recomendam apenas um bom apoio no calcanhar. Eu, que em geral sou pela ausência de constragimentos e pelo mais natural possível, gostei muito que a Alice tivesse começado por comer fruta e só depois papa, mas não me agradou o peso da sola de couro. As sandálias que lhe comprámos são bonitas e continua a usá-las no caminho para a escola, quando vamos sair. No saco, vão sempre os sapatinhos de andar. Desde que começámos a fazer isso e a tirar os sapatos no regresso a casa, voltou a arriscar pequenos passos distraídos.

Última nota: em conversa com pessoas da geração anterior, tenho ouvido dizer muitas vezes: «eles no verão andam mais depressa». Sou disso um exemplo, faço anos em Agosto e comecei a andar na altura do primeiro aniversário. Dei comigo a pensar que num verão como o de 2005 ou o de 2003, ninguém se atreveria a calçar, pelo menos em casa, os sapatinhos de sola, pesados e pouco arejados. Talvez a sabedoria popular esteja com isto a dizer: «eles descalços andam mais depressa».

Comments

sem lenço e sem documento e por mim também sem sapatos.

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