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Pri-ma-vera

Pensava que só me acontecia a mim e descobri que não estou sozinha. Há dois dias, um comovente sms confirmou que não é apenas na minha cabeça que soa ainda, a 21 de Março, a palavra de ordem de boas-vindas que fizemos ecoar pela rua da nossa escola há mais de vinte anos. Imagino a minha amiga Teresa em frente a um ecrã a analisar imagens cerebrais e a tamborilar com os dedos ao ritmo da memória auditiva. No carro, em cima do tablier, além de uma data de outras tralhas que por ali escorregam nas curvas, está uma flor de papel, como essas que plantámos há mais de vinte anos, que celebra a nova estação. Deram-na ao pai da Alice e por todo o bairro há uma em cada loja. O universo escolar até aos dez anos foi muito importante para mim, guardo preciosas imagens e valiosíssimos amigos dessa altura. A celebração da chegada da primavera que fizemos algures na primeira metade da década de oitenta é como um símbolo do que passei no velho palácio cor-de-rosa, aberto todo o ano, das oito às oito. Talvez por isso não me tenha custado demasiado a ida da Alice para a escola - claro que ajudou poder ir buscá-la às horas que quisesse, o facto de ela se sentar e brincar sozinha, não beber leite durante as horas que lá passa, a simpatia da educadora. Mas devem ter ajudado também as flores que já no ano passado se espalhavam pelos estabelecimentos da freguesia, da loja de electrodomésticos à ervanária, a saudar o bom tempo. Para o ano, quando a falar um pouco melhor, pode ser que me apeteça ensinar-lhe as palavras de ordem, na cadência certa, numa versão adaptada à nossa vida : a Alice. gosta. da pri-ma-vera!