Reflexo

Fotografia tirada pelo avô António
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Fotografia tirada pelo avô António
Agora que se começou a notar a barriga para além dos limites do razoável e da dúvida, as pessoas querem falar sobre o assunto. Desta vez, embora menos eufórica, como já estou habituada à ideia e já sei bem quanto tempo dura uma gravidez, até acedo em revelar partes mais secretas. Mas não era por isso, o post. Era por causa de uma mãe que entre louvar a coragem e fechar a boca de espanto me dizia: "é melhor assim, fica logo despachada". Despachada das fraldas, do leite, das sopas sem sal congeladas em pequenas doses, dos choros, do sono intercortado, dessa coisa aborrecida que é um bebé não poder explicar o que sente. Olho para a Alice que dá os primeiros passinhos seguros e teima em tentar subir escadas, e penso que até há bem pouco tempo, pouco mais fez do que comer, dormir, chorar, provar novos alimentos, sujar fraldas e pilhas de roupa. Se tirar isso tudo, fica muito pouco. Pelo menos muito pouco que se possa explicar em palavras. Viver esses "incómodos" em fast forward era o que eu menos queria quando pensei num segundo filho. A Ana escreveu um dia, com graça como sempre, sobre esse eterno começo adiado: achamos sempre que depois do liceu, depois da faculdade, depois do primeiro emprego, depois do casamento, depois de engravidarmos, depois do nascimento, depois do primeiro mês, depois de começarem a comer papa, depois de experimentarem sopa, depois de começarem a andar, depois de falarem como nós, depois de tudo despachado é que vai ser. E quem vamos sendo entretanto?
Hei-de voltar ao tema, quando conseguir despachar-me de todos outros injustificáveis afazeres, seja lá isso quando for.
é poder escolher quando desço a rua.
Segundo a voz sábia do Tiago, o verdadeiro blogger só se esquiva à actualização regular se estiver de férias. Todas as outras desculpas são frágeis e não convencem o veterano. (A entrada chama-se Prioridades e não dá para lincar directamente.) De facto, não tenho aproveitado o tempo que o blogue me deixa livre para descansar. Mas nem todos têm a sorte de Cavaco, que é sempre pertinente em cada post. À excepção de todos os momentos em que temos a auto-censura desligada, neste blog só serão publicadas tiradas verdadeiramente novas e perspicazes.
Geralmente são desejos, no plural. Mas no nosso caso é só um. Aqui vai, em primeiríssima mão, um segredo: tanto na primeira gravidez como nesta, a Mãe da Alice ficou tomatodependente. Seja a que hora ou refeição for, o tomate sobrepõe-se por larga margem a todos os outros elementos da roda alimentar. Hidratos de carbono? "Está bem querido, mas podes preparar-me também um prato cheio até acima com uma saladinha de tomate-cereja e óregãos, não podes?" Proteínas? "OK, bebe lá o teu batido de leite com banana que eu prefiro um copo de gaspacho fresquinho." Listas de supermercado? "Acho que já tens tudo, mas não te esqueças mesmo é dos medalhões de pescada para a Alice e de, enfim, tu sabes." E o enfim tu sabes é um quilito ou dois de tomate, claro.
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Os melhores momentos da gravidez são quando se percebe que tudo isto é irrepetível e que cada filho é único. Ao mesmo tempo, a cumplicidade com as barrigas alheias, no mesmo estado.
Na escola, chamam-lhe "a beijoqueira". E para nossa felicidade, a nossa doméstica felicidade, não há no epíteto o mínimo de exagero.
Samuel Beckett, que a Alice ainda não sabe quem foi, faria hoje 100 anos.
O avô Vítor, que a Alice sabe perfeitamente quem é, fez hoje 59.
- Eu acho-o parecido com o pai.
- Eu acho-o parecido com a mãe.
- Eu acho-o parecido com o Noddy.
Nasceu o filho da nossa grávida itálica e do seu dedicado namorado, agora também pai extremoso. Nunca me tinha acontecido ter alguém tão próximo em trabalho de parto ou no bloco operatório para uma cesariana. A família tem parido longe, os amigos nem sempre são de perto, ou nem sempre estamos perto nessa altura da vida. A mim, mais do que o tamanho do bebé cabeludo, comove-me o amor daqueles três, mais ligados ainda, agora que o cordão se cortou.
Faz hoje uma semana. A Alice deu os primeiros passos conscientes e desde então nunca mais parou. Anda melhor cada dia, quase que corre para os nossos braços, arrasta sacos de papel com tralhinhas lá dentro. No mesmo dia, horas antes, o seu irmão ou irmã mexeu-se também com justiça e clareza. Desde aí, vai dando sinais de vida diários, ainda pouco intensos.
O que é engraçado nestes marcos é que aquele que assinalamos oficialmente como o primeiro dia, não passa efectivamente do início da contagem. A menos que falemos de acções dependentes do exterior, como a primeira colher de comida sólida ou o próprio nascimento, todos os outros progressos, durante a gravidez e depois, vão-se dando lentamente, por tentativas, e as primeiras parecem ainda pouco claras, duvidamos delas. Há dois meses que via a Alice dar passos esporádicos, sempre distraída, com avanços e recuos na qualidade e frequência; num crescendo foi ganhando confiança até ao dia em que a pousei junto à porta da rua e depois de girar a chave fiquei a vê-la avançar, decidida, até ao meio do seu quarto. O mesmo se passou com o bebé que trago aqui. Tenho a certeza de que o senti mexer há pelo menos três semanas, apesar dos médicos duvidarem; mas não passou de um sinal e de um ensaio geral para a grande actividade que me espera nos próximos meses.

Parte da vista da janela do escritório, na semana passada.
ROSA VERMELHA
Rosa vermelha
Rosa vermelha
Rosa vermelha
Ele levou-me ao jardim da rosa vermelha
E atou uma rosa vermelha às minhas madeixas trémulas na escuridão
E por fim
Adormeceu comigo sobre a pétala duma rosa vermelha
Ó pombos sem destino
Árvores inexperientes ingénuas, ó janelas cegas,
Debaixo do meu coração e no fundo das minhas costas, agora
Cresce uma rosa vermelha
Vermelha
Como uma bandeira
Na ascensão
Ah, estou grávida, grávida, grávida
Poema da poeta iraniana Forugh Farrokhzad, traduzido por Mohsen Rostami e publicado no n.º 8 da revista aguasfurtadas.

Hoje foram 20 passos seguidos, de uma ponta à outra do corredor. Repito: 20 passos seguidos. Uma coisa digna de se ver.

Alice na sala rima com Waterloo.
Os livros estão no top cinco dos brinquedos favoritos (rivalizam agora com uma velha cafeteira e três colheres de plástico; a girafa que a acompanha para todo o lado não é um brinquedo, é um elemento da família). Os livros dela, pequenos, de páginas de cartão, com desenhos moldados a plasticina, com coisas que aparecem e desaparecem, e até mesmo uma Anita, versão muito mais infantil. Os nossos livros, também: os que estão nas prateleiras que consegue alcançar. Deixamos que mexa neles se não virar as páginas com entusiasmo desmedido ou enquanto não os tenta morder. Embora o pai lhe cante várias cantilenas inventadas no momento - sempre com afinação e versos disparatados com rimas emparelhadas, eu ainda sou a que mais frequentemente me arrisco a contar-lhe uma história de um livro. Mas raramente aceita, prefere descobri-los sozinha. Para pais como nós, o Pequeno Herói tem programa para hoje:

Hoje a avó paterna da Alice fez anos.
No final do ano passado, a avó paterna da Alice caiu desamparada no meio da rua e magoou-se seriamente no ombro direito, o que a forçou a inúmeras sessões de terapia e consultas médicas, com segundas, terceiras, quartas e quintas opiniões. Na quinta-feira passada, depois de muitas dúvidas e hesitações, a avó paterna da Alice foi operada aos tendões do ombro (estruturas muito sensíveis e com nomes esquisitos), aparentemente com sucesso.
Hoje a avó paterna da Alice fez anos.
Ainda está dorida da operação, meio zonza da anestesia geral e a preparar-se psicologicamente para mais não sei quantos meses de tratamentos. A Alice foi visitá-la e, percebendo que a avó está meio avariada, conteve o impulso de lhe saltar para o colo. Esteve por perto, espalhou beijinhos, puxou o ânimo da avó para cima e enterneceu o avô que anda exausto com tantas preocupações.
A Alice pode não saber, ainda, o que é uma mentira. Mas já compreende muito bem certas verdades.
Hoje é Dia das Mentiras, mas a Alice ainda não sabe o que é uma mentira.