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Neste blogue trocam-se cromos do mundial. Só próprio ao próprio.
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Neste blogue trocam-se cromos do mundial. Só próprio ao próprio.
Às vezes vem-me à cabeça a expressão "não é nada de pessoal", geralmente usada por pessoas e sobre o que fazem outras pessoas, uma sequência de palavras que abomino. Como se tivéssemos uma segunda pele que arrancássemos ao papel que protege os autocolantes, e debaixo disso, sim, estivéssemos nós, a nossa pessoa. Ou outro, no nosso lugar, incidindo a nossa crítica sobre a película transparente que protege e expõe o que está por baixo. Não é nada de pessoal. Hoje apetece-me dizer: "não é nada de pessoal, mas os quatro painéis de azulejos que colocaram o mês passado em frente à janela do quarto da Alice, parecem feitos há vinte anos". A minha pessoa não tem nada contra os azulejos em si e menos ainda contra os senhores que os colocaram, abdicando dos primeiros feriados na praia. A minha pessoa podia nutrir uma estima sincera pela pessoa que assina "querubim" e que desenhou o painel agora na parede do ginásio da escola. Mas eu não gosto muito daquilo. A intervenção artística faz-me sentir que recuei no tempo e ao mesmo tempo nem por isso, numa espécie de desconforto cronológico. Parece-me que a data no canto inferior esquerdo podia ser 1986, tudo faria mais sentido, e ainda coleccionávamos, sem vergonha, os cromos do mundial no México. Ou que os azulejos podiam estar ali colados, um puzzle perfeito, desde que aqui passo na rua, já vai para sete anos: as juntas ligeiramente escurecidas, a quadrícula à vista, cada verão um pouco menos de cor.
Todos os dias de manhã, a Alice bate as palmas quando subo o estore do quarto com ela ao colo, parece ficar mais animada com as cores da obra de arte do que com o bom tempo. Acabo sempre por me sentir constrangida por desejar outras paredes possíveis. De facto, não é nada de pessoal.

Uma semana sem internet em casa. Daqui a cinco dias vamos de férias. A intermetência só abranda em Julho.
É verdade que a agenda começa a ter mais espaços em branco. Mas também é verdade que a Alice quer ser dona de todos e de tudo o que acontece enquanto ainda está acordada. A barriga (há dias que parece enorme) pesa qualquer coisa mais do que o meio quilo que a ecografia atribuía ao feto. Mesmo assim, ontem consegui ir à reunião das mães lá na escola da Alice, um encontro para falar sobre o prazer que nos dá o papel de mãe, o que nos faz orgulhosas na maternidade, as vantagens da progenitura. O mais triste não foi a ausência de uma toalha de mesa para anotar as queixas, as dúvidas, as hesitações, aquilo de que realmente as mães falam quando se encontram. O mais triste foi chegar ao fim e perceber que ainda não sei o nome das mães das crianças da sala da Alice. Continuamos a ser, mesmo entre iguais, mesmo quando nos tratamos por tu, a mãe de x.
Quando a Alice levanta a t-shirt da mãe e diz "bé-bé", apontando para a barriga cada vez mais redonda, eu compreendo (e fico enternecido).
Quando a Alice levanta a minha t-shirt e diz "bé-bé", apontando para o umbigo paterno, eu não compreendo (e fico preocupado).
É um tema que me tem acompanhado. Assim que a pilha de trabalho descer mais um pouco (já se inverteu a tendência), quero voltar a ele. Uma coisa é clara para mim: mesmo distante da vivência religiosa, prefiro um bom pastor a um bom filho. (A referência é ao post "Cuidados", publicado hoje e impossível de lincar directamente.)
"Têm aqui um casalinho piroso", disse a ecógrafa, olhando para o ecrã a preto e branco e para a Alice inquieta no colo do pai. E quando ouvimos isso foi como se nunca tivessemos desejado outro bebé que não este que aqui anda a mexer-se e que se vai chamar Pedro (pelo menos até mudarmos de ideias). Tem sido um mês difícil este Maio, cheio de obrigações profissionais, sociais e pessoais, mas ainda não nos esquecemos da password do blogue, nem dos beijinhos de boa noite.
- Então e o que é te deu a Alice?
- A primeira visita ao Hospital da Estefânia.

Trepar.
Este blogue não está sequer a meio gás. Está a um quarto de gás ou a um décimo de gás. E a explicação é simples: tanto o Pai da Alice como a Mãe da Alice andam mergulhados em tarefas que não dão tréguas. Não dão mesmo.
Enfim, melhores dias virão. Aos leitores regulares, as nossas desculpas e o pedido renovado de paciência.