Sem título
Às vezes vem-me à cabeça a expressão "não é nada de pessoal", geralmente usada por pessoas e sobre o que fazem outras pessoas, uma sequência de palavras que abomino. Como se tivéssemos uma segunda pele que arrancássemos ao papel que protege os autocolantes, e debaixo disso, sim, estivéssemos nós, a nossa pessoa. Ou outro, no nosso lugar, incidindo a nossa crítica sobre a película transparente que protege e expõe o que está por baixo. Não é nada de pessoal. Hoje apetece-me dizer: "não é nada de pessoal, mas os quatro painéis de azulejos que colocaram o mês passado em frente à janela do quarto da Alice, parecem feitos há vinte anos". A minha pessoa não tem nada contra os azulejos em si e menos ainda contra os senhores que os colocaram, abdicando dos primeiros feriados na praia. A minha pessoa podia nutrir uma estima sincera pela pessoa que assina "querubim" e que desenhou o painel agora na parede do ginásio da escola. Mas eu não gosto muito daquilo. A intervenção artística faz-me sentir que recuei no tempo e ao mesmo tempo nem por isso, numa espécie de desconforto cronológico. Parece-me que a data no canto inferior esquerdo podia ser 1986, tudo faria mais sentido, e ainda coleccionávamos, sem vergonha, os cromos do mundial no México. Ou que os azulejos podiam estar ali colados, um puzzle perfeito, desde que aqui passo na rua, já vai para sete anos: as juntas ligeiramente escurecidas, a quadrícula à vista, cada verão um pouco menos de cor.
Todos os dias de manhã, a Alice bate as palmas quando subo o estore do quarto com ela ao colo, parece ficar mais animada com as cores da obra de arte do que com o bom tempo. Acabo sempre por me sentir constrangida por desejar outras paredes possíveis. De facto, não é nada de pessoal.
