* Pedro, temos pena, ficas cá com a avó
Depois de sabermos da gravidez, a par do desejo de tomate, apareceu aqui por casa uma súbita vontade de um carro maior. Um carro familiar como os dos anúncios. Este tema na publicidade parece competir com o Mundial de Futubol: há uma instituição de crédito que ajuda cada um a comprar o carro próprio para a sua idade e uma marca que equipara a mulher no casamento ao carro novo (a mulher sai a perder). Eu nunca tive um carro dos meus sonhos, por isso também não me diz nada o filme onde se vê o homem contente por não abdicar do veículo com a chegada da descendência. Mas tenho um fraquinho por spots de rádio (*) e rio-me sempre que passa aquele em que uma família numerosa sorteia quem não vai de férias porque há lugar para todos no carro. Um destes dias fui buscar as memórias de infância, e lembrei-me dos carros do meu pai e dos dos meus amigos. Renaults 5 amarelos, 4 L brancas ou azuis escuras, 2 CV vermelhos, Dyanes verdes, albergavam famílias imensas, os filhos lá atrás, deabulando pelos bancos sem cintos nem cadeiras, meios sentados em cima de malas, sacos, mochilas, lancheiras. As férias sabiam-nos bem. Como nos vão saber estas para que partimos dentro de momentos. Eu não abdico dos cintos de segurança, muito menos transijo um metro que seja sobre rodas e sem uma cadeirinha adequada à idade. Não trocámos propriamente de carro, fizemos antes um upgrade do nosso: o mesmo modelo, outra cor, ar condicionado, isofix. Vamos todos, voltamos daqui a três semanas. Até lá não há avós, não há babysitters, só nós, o Clio cinzento, e milhões de grãos de areia para sentirmos debaixo dos pés.