17 meses
Faltámos à festa do fim do ano lectivo na escola, mas tivemos direito a receber a capa com os trabalhos que nós, pais, fomos fazendo, a pedido, durante os últimos meses. Com a capa, um livro manufacturado que compila todas as notícias que a educadora foi afixando mensalmente sobre a vida da Alice no infantário. Além das diferenças de penteado, o mais curioso é observar a evolução do objecto afectivo que a acompanha - os franceses, que são mais inteligentes do que nós, chamam-lhe doudou.
Nós chamámos-lhe Rosa, Tobias, Miffy, Girafa, Bebé e Coelha. Os três últimos partilham actualmente o pódio, os anteriores foram esquecidos aos pés da cama, o Tobias à porta de casa. Não tem ainda uma palavra para a coelha gorda, cor-de-rosa, cujas orelhas compridas esfrega na cara antes de adormecer, mas chama o bebé pelo nome. O bebé foi, aliás, o primeiro protagonista da brincadeira simbólica que iniciou aqui há uns dois mês meses quando tentou alimentá-lo com pedacinhos de queque na cafetaria do Ikea. A favorita girafa tem direito à designação exclusiva Caqui (uma derivação, tenho quase a certeza, de «está aqui») e vai todos os dias para a escola. Para a sala dela na creche só pode mesmo levar a girafa, é um acordo tácito que temos com a educadora, que protege os outros meninos das invasões de bonecos (no outro dia entraram 4-quatro-4 na minha cama de manhã) e é justificado porque a girafa é uma «espécie de chucha».
Depois da capa e da edição única de «As minhas notícias - Alice S.», fomos chamados para receber a ficha de observação. Ainda discutimos um pouco diante a educadora discretamente trocista,
Pai: ela diz frases com quatro palavras!
Mãe: ai sim?, quais?
Pai: agora não me lembro, mas sei que diz.
mas na maior parte do tempo estivemos embevecidos com os feitos esperados para a idade. Diria que teve 5 a tudo, excepto as negativas no que respeita ao autocontrolo («Retira a mão e diz "não-não" quando está perto de um objecto proibido?») e paciência («É capaz de esperar que satisfaçam as suas vontades e desejos?»). Apesar de emprestar a querida Caqui aos bebés que choram ou têm sono (já assisti), também chumba na partilha - garantem-nos que são os únicos momentos de stress no dia, aqueles em que um colega se aproxima e lhe retira o brinquedo. Não é muito encorajador saber disso e contar as semanas para o fim do reinado da Alice enquanto filha única (são no máximo 9 semanas e meia). Vale-me o Brazelton que confirma que a negatividade atinge o seu máximo durante o segundo ano de vida para depois se tornar intermitente até ao quarto ou vigésimo oitavo. Vale-me também saber - contaram-me ontem - que, apesar de não usar nenhuma, conhece as chuchas de todos os colegas e, solicitada ou não, coloca-as nas bocas certas quando choram.