30 semanas e 6 dias
Não é que não tenha sido ainda tomada pelo Grande Espírito Nidificador. O problema é ter em mim essa fúria e não encontrar o tempo certo para a apaziguar enquanto olho para máquina de lavar em plena labuta e refresco os meus pés, dois tamanhos acima, no chão demasiado morno da cozinha.
Já com os posts, o problema não é a falta de tempo, mas a falta de ímpeto que mais cedo ou mais tarde ataca quem bloga. A mim, atinge-me sempre cedo demais e por razões muito diversas. Desta vez, lembro-me com saudades dos dias em que postava aqui, com outro nome, outra companhia, outra leveza e um tom mais subtil. Desmotiva-me bastante que cada post seja pouco mais do que um postal para a família (que vai comentando em off e reclamando ilustrações realistas). Perdi toda a capacidade de escrever nas entrelinhas e ainda mais a de ler entre os caracteres. A prova disso é que passei uma semana à procura das novas entradas da menina plim, para lamentar demasiado tarde o sentido da saída de emergência. Entretanto, se não posso escrever, transcrevo (quer dizer: «ávida e meticulosamente passo a escrito o que oiço»). E nos intervalos, para calar todas as vozes que ecoam na minha cabeça, espreito a blogosfera e colecciono referências a novas vidas. Encontrei três: uma aqui, a segunda vem de Nova Iorque e contem ideias sobre os filhos dos outros, enroladas no tambor da máquina de lavar (a entrada chama-se Laundry Blues, data de 2 de Julho e não dá para lincar directamente), a terceira é um blogue que é babyblogue dos pés à cabeça (apesar de lhe faltar a barra de contagem do tempo, o cursor com estrelinhas e o excesso de pontos de exclamação) e, como o homenageado é família próxima, seguirei atentamente as contribuições dos seus pais.
Como todas as grávidas, também acho, tenho a certeza, que este filho vai querer sair antes da data prevista (22 de Setembro). Antes disso, gostava muito que ganhasse peso decente e maturasse os pulmões. Antes disso, gostava de libertar umas gavetas para as encher de roupa minúscula; responder a dúzias de e-mails em falta; facturar um pouco mais; pôr por escrito e talvez publicar aqui quatro ou cinco ideias sobre a ser mãe, sobre ser mãe de dois filhos, sobre ser mãe de um filho rapaz e uma filha rapariga; actualizar para memória futura os progressos da Alice; maravilhar-me diante dos que nos vão lendo com o milagre da aquisição da linguagem e dos beijinhos gratuitos (aqueles que distribui por sua livre iniciativa).