« 38 semanas e 3 dias (idade ecográfica) | Main | Setembro (2) »

Setembro

Há um ano atrás, lia com algum distanciamento na blogosfera os relatos dos primeiros dias de escola de vários filhos. Pensava ficar com a Alice em casa durante mais um ano, mas tinha acabado de perceber que seria impossível trabalhar alguma coisa de jeito - o bebé dorminhoco e sossegado tinha-se transformado numa irrequieta menina que queria descobrir toda a casa e todo o mundo com as mãos, a boca, os pés, a cabeça, os joelhos. Fomos surpreendidos com uma vaga inesperada na única escola de que tínhamos gostado a uma distância razoável de casa - cinco minutos de carro, incluindo o tempo de estacionamento para pouco desembaraçadas, vinte minutos a pé, mesmo a empurrar um carrinho. Não hesitámos e aceitámos, um mês depois, em Outubro, começámos a adaptação. A Alice demorou cerca de uma semana a adaptar-se à escola, à sala, aos outros bebés, à educadora. E cerca de um mês a adorar ir para lá. Ajudou muito todo o tempo que tivemos para a ir deixando ficar um bocadinho mais. Ajudou muito serem as poucas horas que por lá ficava ao princípio - das 10h30 às 15h30. Ajudaram muito os dias de folga que gozamos a duas ou a três, que cá em casa trabalhamos com horários e calendários muito pouco convencionais. Acho que acima de tudo ajudou a minha experiência na escola e a calma da educadora, paciente, profissional, carinhosa - foi um alívio saber que fica de novo com o grupo e espero que assim seja até ao fim do percurso da Alice ali.

Quando começou a sua longa vida escolar, a Alice tinha oito meses, já não bebia leite durante o dia (só de manhã e à noite); sentava-se e brincava sozinha; começava a regularizar os sonos (felizmente, apesar de ter perdido a sesta de manhã, continuou a praticá-la durante mais uns bons meses, ao fim-de-semana). Estávamos muito certos daquilo que fazíamos. Era importante que eu pudesse continuar a trabalhar com alguma regularidade - financeira e mentalmente importante. Era bom que o tempo passado na escola não fosse em excesso - seria impossível garantir isso com um emprego por conta de outrem.

Comecei a ir para a escola com cerca de três meses, mantive-me por lá até aos dez anos. Como sou filha única - contingências da vida, mais do que uma opção - foi importantíssimo tudo o que aprendi e vivi no velho palacete cor-de-rosa, gerido por uma comissão de pais ainda dominada pelo espírito do PREC. Alguns dos meus amigos de hoje conheci-os nessa altura, entre o berçário e as escadaria que levava à primária. Tenho vozes desse tempo gravadas na memória com muita nitidez: a Deolinda que gritava no início do recreio "quarto ano, para cima" no fim da hora do almoço, "para baixo do telheiro", quando chovia só um bocadinho. As portas eram enormes, e as da escola da Alice reproduzem em mim a escala desse tempo.

Um ano depois, todas as manhãs, depois de vestida, a Alice apanha a girafa e a mala do pai e dirige-se para a porta de casa. Pouco depois, bate as palmas à porta da escola, segue sozinha pelo largo corredor, a girafa na mão, o pai atrás (de vez em quando vou com eles e delicio-me a observar), bate à porta da sala e entra. Era isto que me apetecia contar aos pobres pais preocupados que estavam connosco na reunião de sexta-feira, onde conhecemos a sala e equipa que vai acompanhar os nossos filhos até julho. Sei que fica bem entregue. Acho de que saberia também se não ficasse. Sempre vai havendo algumas certezas nisto da maternidade.