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Mesmo a tempo

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(ilustração daqui)

Quase dois meses depois, voltámos ao corredor onde tudo começou, uma porta antes do 212 onde nasceu a Alice, várias portas depois do 204 ou 205, o primeiro quarto do Pedro. Voltámos lá ontem, com o Pedro, sem a Alice, e vimos meia família recomposta de um parto rápido e feliz (pareceu-me), a mãe calma e luminosa por fora, a filha linda e mínima perante o nosso enorme (e lindo) filho, com 60 dias de avanço.

As diferenças entre o primeiro e o segundo filho são imensas além do pormenor de ter esquecido o número do quarto - talvez porque o repeti poucas vezes ou porque a estada foi curta; provavelmente por saber que isso não é importante daqui a pouco mais de ano e meio. Além das evidências anatómicas (que não são de desprezar porque um rapaz molha efectivamente mais roupa que uma menina) é tudo diferente também porque tudo é mais simples - bem o dizem os livros, mas experimentá-lo dá-nos uma outra colocação de voz. Eu sei que é assim com toda a gente, mas quer-me parecer que a simplicidade desta segunda vez vem da leveza com que ignoro os conselhos, opiniões alheias e contraditórias. Há uma certeza nos gestos que não deixo que ninguém abale. Menos pressionada por dentro, e muito menos pressionada por fora, carrego nos braços, só num braço ou no marsúpio, um bebé muito mais calmo do que a irmã, apesar de rodeado pelos constantes risos e gritinhos estridentes dela.

O Pedro foi muito vermelho durante o primeiro mês de vida. É certo que tinha os pés liláses (e alguns dos nossos leitores sabem disso), mas todo ele foi encarnado durante duas semanas, passando a colorações cada vez mais esporádicas durante as semanas seguintes. Já lhe chamámos pequeno índio, por causa disso. Já lhe chamámos Yakari, que valeu à Alice o epípeto de pequena trovoada, porque é o que ela parece quando chega da escola ou ao acordar. Agora chamamo-lo só pelo nome enquanto nos deliciamos com os sorrisos gratuitos que oferece a quem o despe. A Alice chamava-lhe "bebé", nos primeiros tempos, depois aceitou responder apontando que quando lhe perguntávamos onde é que estava o mano. Agora chama-lhe "mana". Tem ciúmes, sim, como esperávamos. Luta por um lugar seguro na família, todos o fazemos, e para ela as coisas ainda não tinham mudado nunca, por isso não tem a certeza de que o essencial permanece. Cada vez menos, mas ainda lida mal com os momentos em que o irmão mama. Às vezes estou sozinha nessas horas. Não é fácil, mas não é impossível. Fecho as portas dos sítios perigosos (não me posso levantar a meio da refeição do Pedro para impedir o toddler de fazer alguma asneira perigosa), rodeio-nos de brinquedos divertidos e, se forem horas de desenhos animados decentes, ligo a televisão. Não posso dar à Alice o colo que me pede, mas deixo-a encostar-se a mim e agarrar-me na mão livre. Gostava de ter três mãos. E talvez um dia, três filhos. Por agora, só chego para estes dois. Ninguém disse que ia ser fácil, mas não é tão difícil como pensámos que podia ser. O que torna os nossos dias penosos não são os intervalos das refeições do Pedro ou as crises nocturnas da Alice, o que nos faz a vida pesar são os dias difícieis que inventámos cheios de trabalhos para ontem, irrecusáveis. Vale-me uma energia aparentemente inesgotável - que me faltou quando a Alice nasceu - e uma boa disposição quase permanente. Vivemos um minuto de cada vez. Como são preciosos, aprecio como uma adolescente cada segundo irrepetível. Com a chegada do Pedro, nada mudou, além da velocidade dos ponteiros dos relógios.