Artigo 13 A criança tem direito à liberdade de expressão
Há uns meses, quando ia buscar a Alice à escola, a sala pareceu-me mais vazia de meninos do que o habitual. Olhei melhor e descobri quatro ou cinco rapazes e raparigas com menos de um metro sentados debaixo da mesa onde costumam fazer as pinturas e outros trabalhos importantes. A educadora explicou-me que eles gostam de ficar ali, debaixo do tampo que deve passar a ser tecto de uma cabana, casa, castelo. Lado a lado, todos juntos, responderam muito satisfeitos ao nosso aceno e vim para a casa a pensar que o nosso presente de aniversário podia ser este (que, aliás, tinha sido recentemente testado em casa da Maria, com bastante sucesso). Desde então, não há miúdo que venha cá a casa e não adore a casinha da Alice e eu vi resolvido um grave problema de arrumação do quarto.
Num dia qualquer da semana passada, à porta da sala estava afixado um cartaz, não copiei o texto mas dizia mais ou menos isto: "hoje estivemos a brincar com túneis e cabanas feitos com panos - uma brincadeira sugerida por nós, imitámos os leões e divertimo-nos muito". A maior parte dos miúdos ainda não tem dois anos, muito poucos dizem sequer pequenas frases e, no entanto, tinham vontade de brincar em espaços pequenos, esconderijos debaixo de qualquer coisa, e essa vontade foi compreendida e atendida pelos adultos (neste caso, as adultas educadora e ajudante). Imagino a satisfação desses quatro ou cinco rapazes e raparigas pequenos que me acenaram há umas semanas. Gosto quando as crianças são consideradas pessoas, gente pequena, mas gente que pensa. A liberdade de expressão tem outro sabor se do outro lado do telefone há alguém com a responsabilidade de ouvir.
É quase só por esta educadora que a Alice anda ainda naquela escola, por isso temo pelo que espera o Pedro em Setembro.